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ATIVISMO EM PAUTA丨Um dissidente no Vem Pra Rua, a verdade revelada.

Quando fui sondado informalmente para participar do Vem Pra Rua no início de 2019, aceitei sem pestanejar. Sou ativista político desde 2014. Mais precisamente, desde o término dos protestos pelos vinte centavos que a extrema-esquerda desencadeou em São Paulo em 2013.

Acompanho o noticiário de política desde muito cedo. Mas foi somente durante aquela época que tive engajamento e sorte. Sorte porque conheci as pessoas certas e a melhor informação disponível. Em pouco tempo, deixei a bolha da dicotomia PT contra PSDB e pude entender o que, de fato, era direita, conservadorismo e a necessidade de mudar os rumos do país. 

Breve, quando topei ajudar o Vem Pra Rua, tinha uma boa noção do que se falava sobre o movimento por praticamente todos os círculos da direita e da esquerda. 

Acredito que uma pessoa tem um poder incrível de mudar os rumos dos acontecimentos e das decisões. Notadamente, vi ali uma oportunidade de confrontar minha visão com a das pessoas do movimento, e até reorientar as ações do Vem Pra Rua a um caminho melhor. Em pouco tempo, viria a descobrir que isso seria real, mas motivo de incômodo aos agendados do movimento e seu conselho diretivo. 

O VPR é extremamente organizado, a ponto de perder efetividade com burocracia e ações. Custei a notar que este formato era proposital, um meio para o “conselho” manter controle sobre absolutamente tudo que acontece, sem frestas. 

Disseram-me que o movimento era “suprapartidário” e tinha “pilares” bem definidos, regras e transparência. Quem o integra pode se encantar facilmente com tanta eficiência e boas práticas. Isso explica o que designo “ideologia do compliance que o partido Novo aplica de modo atroz em sua militância mais agendada para doutrinação.

Uma semana antes da minha entrada, deparei-me com uma situação que exigiria articulação ali. Fui um dos incentivadores da manifestação do dia 26 de maio. Vendi a ideia exaustivamente dentro de grupos e testemunhei diversos movimentos aderirem em tempo recorde. 

A imprensa de extrema-esquerda somou-se à “nova esquerda” para classificar o evento como uma aposta do presidente Bolsonaro e de extremistas da direita. É verdade que, naquela data, por coincidência, pequenos grupos intervencionistas haviam marcado um ato. Mas eles foram surpreendidos pela adesão de outros grupos prontos a protestar pelo Brasil e pela Reforma da Previdência, contra a atuação do Congresso e do Centrão, em apoio ao Presidente Bolsonaro. Tudo de forma orgânica. 

Naquele momento, o principal inimigo da direita e do Brasil já não era o PT. Era a mentira; era um problema interno. 

O MBL se valeu das eleições para simular apoio a Bolsonaro e obter uma legião de seguidores. Especializado em criar e disseminar narrativas políticas, o grupo estudou muito a new left americana, Saul Alinsky, David Horowitz, etc. 

Em janeiro, um de seus líderes afirmou que “o governo não firmou”. Os mentores passaram a invocar teorias para criar crises dentro do governo. Um exemplo notório é a teoria do seletorado, que na superfície se propunha a explicar as relações de poder entre os ministérios, mas no cerne era um plano maquiavélico de “fomentar a treta” entre ministros e presidente. 

Apesar dos rumores segundo os quais o grupo tem ligações escusas com o Centrão (mais precisamente com políticos do DEM e do MDB), testemunhamos o MBL dizer que defendia a reforma da previdência. Porém, parecia só defender a reforma do Temer… Um parlamentar ligado ao grupo chegou a afirmar que a reforma da previdência do Bolsonaro “morreu”. 

Era branco como a neve que eles buscavam, propositadamente, desestabilizar o governo e suas políticas, enquanto, na superfície, defendiam a reforma da previdência. Qual era a verdade? 

A primeira manifestação favorável à reforma da previdência do Bolsonaro que eles não apoiaram foi a bala de prata. Por isso, no meio da tensão crescente, insisti como um doido nos grupos que precisávamos protestar e a isca foi mordida. De forma reativa, o movimento deu início a articulações para minar o protesto, alegando que era “golpista” e visava “invadir o Congresso”, entre outras hipóteses. 

Como base da narrativa, usaram um movimento que tinha convocado manifestação para a mesma data uns 40 dias antes, mas sem relação alguma com as pautas que seriam predominantes na avenida Paulista. Eles sabiam disso, mas tentaram manipular. Desde aquele dia, ficou claro que o grupo não defendia a reforma da previdência, tendo se ausentado da primeira manifestação relevante em prol da reforma apenas para não dar força ao governo Bolsonaro. 

Este é o contexto que emoldura minha breve passagem pelo Vem Pra Rua

Um líder do MBL contatou a líder do Vem Pra Rua para combinar a manifestação e pedir-lhe que não aderisse. Tomei conhecimento disso e, mesmo ainda não integrando o Vem Pra Rua àquela altura, me empenhei durante uma semana insistindo sobre a necessidade de aderir. Era do Brasil que se tratava. 

No final das contas, o VPR-RJ aderiu e o VPR-ABC foi à avenida Paulista. O grupo de São Paulo e a Nacional, contudo, não aderiram, o que maculou a reputação do movimento. Mesmo assim, julguei que era possível salvar a coisa toda, uni-me ao grupo e logo trabalhei para aderirmos à manifestação seguinte, marcada para o dia 30 de junho. Participei dos chamados e dos atos no viaduto Tutóia e no viaduto Santo Amaro, ambos em São Paulo. Tudo ía bem.

Internamente, avisei os colegas sobre o perigo do Centrão, da esquerda, das narrativas do MBL, do trabalho da direita. Discorri sobre a aliança liberal-conservadora característica deste governo. 

Mas foi justamente ao tentar blindar o VPR de influências nefastas externas que adveio o choque com as internas. O grupo aproveitava qualquer oportunidade para, através da comunicação oficial, criticar Bolsonaro desproporcionalmente, enquanto não fazia críticas semelhantes ao Congresso.

Foram horas de diálogo interno para tentar mostrar que isto estava errado. Custou até que usassem, nos banners, termos como centrão. A influência dos novistas era colossal. Eles estavam em campanha política para o Novo desde o primeiro instante. 

Em meu juízo, vejo o VPR como o instrumento detido pelo Rogério Chequer para barganhar com o Amoedo. Algo mais ou menos assim: “Amoedo, eu uso o movimento para ajudar o Novo nas “ideias” e você deixa eu ser o candidato para governador do Estado de São Paulo”. Não passa de uma especulação simplista de minha parte, é claro. Cada um imagine o que lhe parecer mais verossímil. 

Notei ainda que as pautas ilustrando os banners do VPR eram idênticas às postagens do Novo e do Amoedo, publicadas com pequenas diferenças de tempo. Parecia até que o Vem Pra Rua torcia pelo pior, na esperança de mais uma oportunidade de palanque na Av. Paulista, para promover novas lideranças cotadas a disputar a vereança na grande São Paulo pelo partido Novo, no rastro de Janaína Lima.

Em tese, o movimento se define como suprapartidário. Afirmava-se que os membros envolvidos em disputa eleitoral ficariam temporariamente afastados. De fato, testemunhei não se permitir a Janaína Lima subir no caminhão com a camiseta do Novo. Mas Chequer, por outro lado, sempre teve passe livre. 

Hoje, refletindo sobre o que tentei fazer ali, vejo alguém chegando na casa do Chequer e pedindo para ele mudar as cores da parede e os móveis de lugar. Obviamente, acabaria em choque.

Em pouco tempo, fui rotulado de extremista, bolsominion, olavete, maluco, etc; mesmo que ninguém tenha conseguido demonstrar com argumentos que os rótulos fizessem algum sentido. Em síntese, tudo o que ocorria se resume a pessoas do terceiro escalão paparicando as pessoas do segundo escalão para ter algum benefício, como dirigir alguma página do Vem Pra Rua, ser reconhecido como liderança e entrar no esquema. Após centenas de conflitos internos, claro que a direção do movimento agiria de forma a manter o controle.

O estopim foi eu ter apontado a visível malícia do grupo nos banners contra o governo, e sempre favorável ao partido Novo. Em votações que ocorriam dentro da Câmara, por exemplo, se 20% dos parlamentares do PSL votassem contra o governo ou o projeto, o grupo se apressava em publicar banners com os dizeres: “Partido do Presidente vota contra”. Estratagema de comunicação para associar o erro de um ao presidente, e superestimar o Novo, que se gaba de sempre votar corretamente. 

Mas quando Alexis Fonteyne, um parlamentar do Novo, assinou a CPI da VAZA JATO, houve uma discussão de dias em torno do banner denunciando-o. O material até chegou a ser feito, mas NUNCA foi publicado. Não foi autorizado. Posteriormente, Alexis disse ter assinado por engano e pediu exclusão da assinatura. 

Mas eu me pergunto: se isso tivesse ocorrido com um parlamentar do PSL, será que o Vem Pra Rua não teria publicado no primeiro instante? 

Paralelamente a esses fatos pontuais, notei ainda uma aproximação cada vez maior entre o partido Novo e o MBL. 

Por último, então, mandei uma mensagem interna ao grupo de São Paulo dizendo que, se continuassem por este caminho, em menos de 6 meses estariam “beijando o Rodrigo Maia e o Centrão na boca”. 

Um mês depois, fui removido dos grupos de ações sem nenhuma justificativa. Nos grupos de debates, nunca pude sequer entrar. Visivelmente, a direção não era afeita a confrontos de ideias. 

Acabei conseguindo entrar, depois disso tudo, num grupo de Whatsapp sem coordenação, no qual minhas percepções eram predominantes. Testemunhei o administrador excluir todos que defendiam o governo Bolsonaro, até que chegou novamente a minha vez. Costumo chamar essa virada de “grande expurgo” do Vem Pra Rua. Um movimento que vive, no fundo, da desgraça do povo brasileiro para explorá-la politicamente. 

Ninguém em sã consciência vê problemas em movimentos lançarem pessoas à política. Mas é um dever de todos nós apontar a hipocrisia daqueles que vivem da mentira, da doutrinação e da ideologia do compliance. Hoje, dentro da liderança do Vem Pra Rua, ou pessoal de segundo escalão, há pessoas que não veriam qualquer problema na volta da esquerda, e classificam os conservadores como extremistas. 

Em poucas palavras, hoje o Vem Pra Rua se reduz a um braço do partido Novo.

Por Rafael Rossi

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