Brasil

A NOVA POLÍTICA NÃO POUPA NINGUÉM

Hoje, em 2019, ignora-se a nova política, esse novo norte da política brasileira, por sua própria conta e risco. Tanto à esquerda quanto à direita, a nova política continua a fazer suas vítimas, por mais bem-intencionadas que essas possam se considerar. Não é pouca coisa. Referimo-nos a reputações e a carreiras políticas inteiras prejudicadas ou mesmo destruídas ad aeternum, ou, no mínimo, pelo tempo que durar a internet. “A substância da vida é o perigo”, já adverte José Ortega y Gasset.

Por exemplo, no primeiro turno das eleições de 2014, Marina Silva obteve 22.176.619 votos (21,32%) e ficou em terceiro lugar. Ela foi incapaz de perceber a importância do manifesto do próprio partido sobre a nova política .

Em 2018 sua votação despencou para míseros 1.069.577 (1,00% dos válidos) e ela obteve menos votos até do que o caricatural Cabo Daciolo . É bem possível que esse resultado desastroso e humilhante tenha sepultado de vez sua carreira política.

Dentre os vários elementos mencionados no manifesto, dois são mais relevantes: a “crise de representação” e o uso dos instrumentos mediáticos para “cooptar, coagir, pressionar e manipular a vontade popular (…)”. No manifesto original – “A favor da nova política” – os autores se referiam a uma crise de representação dos partidos políticos. Entretanto, essa crise não afeta somente os partidos políticos.

Tudo indica que ela se estende aos líderes culturais também, ou seja, às figuras públicas, como jornalistas, artistas e influenciadores da internet. Assim como os políticos, essas pessoas têm seus seguidores, que têm exigências e essas exigências são, em última instância, inegociáveis.

O jornalista Reinaldo Azevedo, por exemplo, foi durante alguns anos o grande arauto do antipetismo e ocupava uma posição de destaque e de grande visibilidade na revista Veja e no programa “Os Pingos no Is” da rádio Jovem Pan. Em 2016, o famoso “tio Rei” virou seus canhões à direita, atacando, com uma virulência antes reservada ao petismo, duas figuras respeitadas e simbólicas da nova política: o filósofo Olavo de Carvalho e o então deputado Jair Messias Bolsonaro.

Em pouco tempo começou a atacar a Operação Lava Jato e todo um segmento do eleitorado, que ele denominou “extremistas da direita xucra” . A nova política não o perdoou e hoje ele é um jornalista relativamente pouco relevante, levando-se em conta sua antiga e atual presença na mídia.

Atitudes e destinos semelhantes tiveram outros figurões conhecidos do jornalismo main stream, tais como Arnaldo Jabor (chamou o Bolsonaro de nazista) e Marco Antônio Villa (chamou as manifestações pró-Bolsonaro de “atos neonazistas”) e o cantor e escritor João Luiz Woerdenbag Filho, o Lobão, que também começou a vituperar contra o presidente . Resumindo: atacando a “direita xucra” essas personagens acabaram relegando-se ao minúsculo e insignificante “centrinho” do João Amoêdo e do Flávio Rocha.

E, finalmente, temos o caso emblemático dos movimentos de rua denominados “Movimento Brasil Livre” (MBL) e o “Vem Pra Rua”. As lideranças desses dois movimentos boicotaram as manifestações vitais organizadas pelas redes sociais e marcadas para o dia 26 de maio deste ano em apoio às pautas do presidente Bolsonaro como a reforma da previdência, o pacote anticrime do Moro e a CPI da Lava toga, num momento de grande fragilidade do governo dentro do Congresso Nacional.

A justificativa que eles deram, que haveria supostos elementos extremistas envolvidos na convocação dos protestos, não convenceu muita gente e, além disso, passaram a circular nas redes sociais alguns vídeos mais antigos de algumas lideranças desses movimentos com posicionamentos contra o presidente e então candidato Bolsonaro, alguns muito fortes e ofensivos.

A reação nas redes foi violentíssima, com a perda de literalmente centenas de milhares de seguidores e críticas contundentes contra esses movimentos de rua que tentaram, em vão, esvaziá-la. O sucesso dos protestos apenas deixou em evidência a independência da nova política e a impotência daqueles que se veem como seus condutores.

O que podemos perceber? Na velha política os líderes determinavam as atitudes e os caminhos a serem trilhados, e os seguidores apenas seguiam por não ter voz ou opções claras. Na nova política as coisas mudaram, os líderes atraem seguidores segundo suas posições e estas devem imperiosamente permanecer consistentes e coerentes, pois não há mais fidelidade incondicional. Os líderes devem auscultar a verdadeira opinião pública e se comportarem de acordo com a vontade popular, já que, numa democracia, é natural que ela deva prevalecer sobre a sua. Os fatos não têm lado, mas as interpretações sim. Se a nova política se consolidará ou durará, lembremos as palavras proféticas dos doutíssimos Jay Livingston e Ray Evans: “o que será, será”.

Rodrigo Carvalho é formado em Direito pela Universidade em Friburgo, Suíça.
Professor e empresário em Santa Catarina.

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