Brasil

CHACINA DE REPUTAÇÕES NO MEC — os efeitos da guerra da informação

O Brasil é a 9ª maior economia do mundo e ocupa 88ª posição no ranking da educação da UNESCO, que avalia 160 países no mundo inteiro. Essa discrepância justifica que o tema Educação seja uma das prioridades do governo brasileiro eleito em 2018.

Formalmente o Brasil não está em guerra. Entretanto, na última eleição se polarizaram as posições dos brasileiros entre apoiadores do candidato Bolsonaro e os chamados, carinhosamente, de extrema esquerda. Em uma guerra a primeira morte sempre é a da verdade, mas que verdade é essa, em tempos de pós verdade?

A pós verdade é um fenômeno do século XXI, cujo termo usado pela primeira vez em 1992 por Steve Tesich. Por conceito, entende-se que a pós verdade é aquela na qual o debate é sempre levado a termos emocionais, desconectando-se dos fatos em si. É a ideia de que a verdade não importa, mas sim o que aparenta ser. É o combustível que movimenta o mercado das ¨fake news¨, uma verdadeira guerra da informação.

Na guerra da informação, quando se quer dominar uma narrativa, o assassinato de reputações é uma dasmais perigosas armas empregadas. Usa-se o conceito da pós verdade para influenciar a tomada de decisão e a execução de ações, que eliminem a atuação de determinadas pessoas ou instituições, contrárias aos objetivos de quem intenciona assassinar uma reputação.

Sob esta ótica, a da pós verdade, vamos analisar a demissão de funcionários do MEC e da consequente queda do diretor de Programa da Secretaria Executiva do Ministério da Educação, Sr Ricardo Roquetti.

O processo de assassinato de reputações segue a seguinte sequência: 1. identificam-se os personagens (ocultos, presentes e influentes); 2. criam-se e exploram-se os fatos, as especulações e a narrativa; 3. implementam-se reducionismos que direcionam o público a compreender as motivações inventadas; 4. esconde-se ou inventam-se os mandantes e 5. controla-se os efeitos & resultados.

Vamos analisar o assassinato das reputações dos integrantes do MEC em 2019?

1- Os personagens

Os influentes: o ministro Ricardo Vélez, o filósofo Olavo de Carvalho (O.C.) e o Presidente da República.

Os ocultos: o establishment de esquerda (no poder da educação desde 1995) e as organizações suprapartidárias de filosofia de direita, que controlam a especulação e a mídia, controladora da narrativa.

Os envolvidos: os chamados ¨olavetes¨ e a ¨ala militar¨.

2- Os fatos, as especulações e a narrativa

Fato 1: ainda em 2018 a indicação de Maria Inês Fini e Mozart (Grupo Senna) à pasta da Educação foi rejeitada por algumas frentes dentro do próprio Ministério. Ricardo Vélez Rodríguez, Doutor em filosofia pela Universidade Gama Filho, respeitado por O.C. e teórico dos valores familiares tradicionais como fundamento da educação básica, foi nomeado ministro da Educação em 2019. A prioridade do governo era desmontar a máquina de ¨guerra¨ montada pelo establishment de esquerda com o intuito de implementar uma agenda progressista internacional, apelidada de ¨marxismo cultural¨.

Especulação: segundo fontes ligadas ao MEC, existem tribos com ¨forças místicas¨ dentro do Ministério: evangélicos, freirianos, olavetes e outros que deixo de citar. Algumas dessas forças teriam concorrido para a rejeição do nome ligado ao Grupo Senna e para a nomeação do atual ministro.

Narrativa: O.C. faz macumba na cabeça do Presidente e emplaca novo ministro da Educação, ou seja, reduz-se o histórico profissional e acadêmico do ministro a ¨aluno de Olavo de Carvalho, um olavete¨.

Fato 2: Ricardo Roquetti, diretor de Programa da Secretaria Executiva do MEC, foi convidado pelo Ministro Ricardo Vélez, para o cargo, ainda durante os trabalhos do governo de transição em 2018. Ele havia sido Vice Reitor do Instituto Tecnológico Aeronáutico, o ITA, uma das maiores universidades País, reconhecida mundialmente por sua excelência.

Especulação: coronel aviador, se dizendo aluno de um filósofo conhecido O.C. se aproximou e conseguiu ser nomeado.

Narrativa: um militar, olavete (seguidor de O.C.) e oportunista se apresenta e consegue um cargo no ministério da Educação.

Fato 3: em visita ao ITA, em 11 Fev 2019, o diretor de programa e o ministro ficaram hospedados no Destacamento de Contole do Espaço Aéreo (DCTA), instalação militar que engloba, fisicamente, o ITA.

Especulação: diretor de programa isolou o ministro na instalação militar sem autorização, e ainda fez a segurança pessoal da autoridade. Há relatos de que a autorização havia sido dada e que a hospedagem, em unidade militar, foi um pedido pessoal do ministro, com receio em sofrer um atentado contra a sua vida.

Narrativa: ala militar infiltra-se no governo e afasta ministro dos olavetes. Há uma conspiração militar para assumir o comando da pasta da Educação.

Fato 4: olavetes que foram selecionados para ocupar cargos importantes no Ministério da Educação: Secretaria Executiva (segundo mais importante), Gabinete do ministro,CAPES, etc, são remanejados. No início de março, três desses indicados pedem exoneração.

Especulação: vaidades, extremismo ¨olavete¨, pressão de integrantes do establishment de esquerda, evangélicos e o dito ¨autoritarismo¨ do diretor de projeto, em trazer pessoas politicamente engajadas com o progressismo, de caráter pseudo técnico, e o remanejamento dos olavetes para funções menos relevantes, geraram as demissões voluntárias. Na última semana o próprio O.C. incitou seus alunos a ¨mostrar coragem e abandonar¨ o governo.

Narrativa: ala militar vence queda de braço contra olavetes, a militarização do MEC ganha corpo.

Fato 5: o Conselho Nacional de Educação é um órgão que tem por objetivo buscar alternativas e mecanismos institucionais que assegurem a participação da sociedade no desenvolvimento, aprimoramento e na consolidação da educação nacional de qualidade. Sua existência, manutenção e efetividade são cruciais para a melhoria da educação.

Especulação: seria uma prioridade original, para o ministro, acabar com o Conselho Nacional da Educação (CNE). A CNE era considerada o braço armado do establishment que comandava o ministério até 2018. Seus integrantes eram escolhidos por indicação do MST, do MLGBTQI+, da CUT e de sindicatos de professores. Entretanto, segundo fontes, tal iniciativa, a de acabar com o CNE, seria catastrófica se ocorresse antes da aprovação da reforma da previdência, e teria sido acordado, na cúpula do ministério, substituir gradualmente seus ocupantes, em um outro momento.

Narrativa: ala militar é integrante do establishment e mantém a CNE no comando, boicotando o ministro e os olavetes.

Fato 6: o governo anuncia que vai fiscalizar de perto as verbas liberadas para a educação, uma espécie de operação lava jato, uma prioridade para o ministério.

Especulação: tanto o diretor de programa, quanto seus indicados (ala militar) são simpáticos a organismos globalistas, contrariando o aconselhamento dos olavetes. Aumenta o isolamento do ministro e a polarização entre a ala militar e os olavetes. Há histeria dos olavetes por entender que a ala militar apóia lobistas ligados a instituições educacionais, costumeiramente beneficiadas pelos programas de governo, como o PROUNI. Os olavetes acusam a ala militar de boicotar as iniciativas de fiscalização do ministério da Educação.

Narrativa: ala militar determina o fim da lava jato da educação e suas atitudes influenciam no aumento do valor de instituições de educação vinculadas a programas de governo na bolsa de valores.

Fato 7: Roquetti é demitido do ministério da Educação.

Especulação: as motivações políticas de Roquetti são incompatíveis com as ideias de direita pregadas pelo novo governo. A crise desgastou demais o ministro da educação, sendo necessária a demissão do diretor de projetos. Há indícios de que o pedido para que o diretor fosse demitido tenha vindo diretamente do Palácio do Planalto.

Narrativa: olavetes vencem ala militar.

Fato 8: o ministro da Educação tem sua imagem enfraquecida pelas demissões de parte de seu gabinete e de pessoas de sua confiança.

Especulação: a exposição do professor Ricardo Vélez o fragilizou no comando da pasta. Há indícios de que sua saúde não esteja muito forte, o pode ser uma perfeita desculpa para acelerar sua saída. Carlos Nadalim, também olavete, é o nome mais cotado para assumir o cargo de ministro da Educação. Seu principal concorrente é o militar da marinha Eduardo Melo.

Narrativa: quem vencerá o segundo round da queda de braço entre olavetes e a ala militar?

Dessa análise conclui-se que apenas a narrativa ganha corpo, ou seja, a pós verdade em ação (não importam ser, importa parecer). Os fatos demonstram total descaso com a Educação. As especulações indicam uma inócua guerra de vaidades, centrada no ¨poder¨ de comandar os caminhos da Educação no País. A narrativa se centra em uma pseudo batalha entre militares e olavetes, sendo o ministério o epicentro de um abalo sísmico de proporções catastróficas para o governo.

3. Os reducionismos e as motivações

Não importam as reputações ou história dos envolvidos, se reduz os estudiosos e os intelectuais, homens íntegros e capazes, que foram indicados ao ministério da educação, a verbetes: ¨ala militar¨ ou ¨olavetes¨, sem se preocupar com levar em mínima conta a firmeza de caráter e a honestidade de propósito das pessoas envolvidas.

Os destinos da educação brasileira foram a uma mera ¨guerra contra o marxismo cultural¨, onde forças ocultas manipulam as pessoas envolvidas e influentes, com poder de decisão, a tomarem atitudes desconectadas do propósito maior, que é a melhoria da qualidade da educação brasileira.

Note-se que, em nenhum momento, há fatos, especulações ou narrativas que abordem objetivos como: melhoria da educação, da economia ou do Brasil. Todos eles, sem exceção, apresentam motivações baseadas em vaidades e necessidades pessoais dos envolvidos.

4. Os mandantes

Não houve mandantes. Nesse caso, houve um fratricídio, ou seja, todos foram alvejados por todos, sem possibilidades de defesa.

5. Os efeitos e resultados

O governo atrasou seus projetos e ganhou uma crise de imagem e de recursos humanos para resolver.

Os envolvidos não puderam colocar em prática suas convicções e teorias. Ainda, perderam seus empregos e arcarão com as consequências dessas manchas em seus currículos, durante um bom tempo.

A população mais uma vez ficou à mercê de uma indefinição dos rumos concretos que a educação tomará no País.

Percebe-se que os únicos que ganharam com os múltiplos assassinatos foram as forças ocultas, que implementaram suas agendas. No caso do MEC, pode-se considerar que houve uma verdadeira ¨chacina de reputações¨. Homens nobres com objetivos nobres foram ¨abatidos¨ em uma troca de tiros virtual, cuja consequência foi o seu afastamento do ¨fazer¨ o bem para o País.

A guerra da informação deixa marcas e atrasa o desenvolvimento do País. Quando há assassinatos de reputações, quaisquer que sejam as motivações, quem mais sai perdendo é a sua população que enseja ter seus filhos melhores educados e preparados para enfrentar os desafios do Século XXI.

Autor: Col. Clynson Oliveira PhD, Army Col, mastered Politics and Strategy Army Command and Staff College. Now is CEO Leadership consulting in Brazil.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.