‘Hackers do bem’ criam ferramentas para fiscalizar políticos’

Bruno Pazzim/Serenata de Amor

‘Hackers do bem’ criam ferramentas para fiscalizar políticos

Software de profissionais da Computação revela, por exemplo, que valor pago em 2016 a servidores aposentados no Senado daria para pagar salário de Neymar por nove anos

Elisa Clavery e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2017 | 17h11

Você sabia que, apenas em 2017, a Câmara dos Deputados gastou o equivalente a 114 milhões de salários mínimos com a Cota para Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap)? Que, com o valor pago em 2016 a servidores aposentados no Senado, de R$ 1,1 bilhão, seria possível pagar o jogador Neymar por nove anos? E que 83 deputados receberam acima do teto constitucional de R$ 37.476,93, pelo menos uma vez, entre 2012 e 2017? Esses e outros dados, que estão públicos em sites oficiais, foram reunidos por cientistas da computação, que criaram sites para acompanhar os gastos públicos de políticos. São os “hackers do bem” numa força-tarefa contra a corrupção e contra o mau uso do dinheiro público.

Serenata de Amor
Integrantes da Operação Serenata de Amor, criada em 2016, para analisar gastos públicos Foto: Bruno Pazzim/Serenata de Amor

Financiado por meio de crowdfunding, o grupo Operação Serenata de Amor foi criado no dia 7 de setembro do ano passado. O coletivo, formado por 11 profissionais das áreas da Ciência da Computação, Sociologia, Administração e Comunicação, criou um software para monitorar as despesas mensais de parlamentares. Uma robô, apelidada de Rosie, ajuda na identificação de casos suspeitos – e “aprende” com cada um deles.

“Por exemplo, o deputado que comeu, em média, R$ 800 no (restaurante) Bode Assado: isso é mau uso do dinheiro público ou não? Toda vez que um ser humano confirma (para a robô) que isso é mau uso, ela aprende. Vai reunindo as informações e fazendo a análise de gastos de forma cada vez mais precisa”, afirmou Felipe Cabral, co-fundador do projeto.

O nome da iniciativa é uma referência a um escândalo sueco na década de 1990, conhecido como “Caso Toblerone”, quando a vice-primeira-ministra usou um cartão corporativo para comprar coisas pessoais – entre elas, um chocolate. “Existe uma coisa tão pequena que, se ela for ilegal, a gente vai detectar”, disse Cabral. O co-autor afirma, ainda, que o nome “operação” é uma brincadeira para flertar com os trabalhos da Polícia Federal na Operação Lava Jato. “(A ideia) É para ajudar nós mesmos a decidirmos em quem votar e a descobrirmos quem a gente deveria apoiar ou não.”

TOP 10

Criado para avaliar a Ceap mês a mês, o “Vidinha de Balada” apresenta, já na sua homepage, o “Top 10 gastadores”. O sistema divulga os gastos com a atividade política e dá selos aos parlamentares com categorias distintas – a de “Guloso” para os que gastaram mais com comidas ou “Tanque Furado” para as verbas exageradas em combustíveis. Já o termo “Rei do Camarote”, típico de uma balada, é associado ao parlamentar que  estourar a cota.

A abordagem parece brincadeira, mas a estudante de Ciências da Computação na Universidade Federal de Campina Grande (UFGC) Martha Menezes, de 23 anos, diz que a inspiração é coisa séria. Ela é desenvolvedora do projeto e uma das responsáveis pela aquisição dos dados – todos públicos e disponíveis no site da Câmara. “São muitos dados, tabelas que você não entende exatamente o que é. Se para a gente já é difícil, imagina para a população em geral”, avaliou.

PERFIL

A equipe do Vidinha de Balada é jovem. São sete desenvolvedores, todos estudantes da graduação e da pós, e o mais velho tem 27 anos. A iniciativa, criada para que o usuário “fique mais atento sobre como seu dinheiro está sendo gasto”, surgiu durante um festival de programação na Paraíba neste ano, organizado pelo Ministério Público do Estado e chamado “HackFest”. Segundo a organização, foram 180 maratonistas e mais de 3 mil participantes.

Outro projeto que nasceu da maratona é o “QuebraQuebra”. O grupo desenvolveu um programa capaz de baixar e organizar os dados da folha de pagamento da Câmara e do Senado. Pelo sistema oficial, é preciso fazer a busca de um por um. As duas Casas têm diversos dados disponíveis, como o salário de seus funcionários, porém para um internauta comum pode não ser fácil acessá-los.

“Existe uma quantidade de informações enorme e a única forma de processá-las é com o desenvolvimento da tecnologia da informação”, disse o economista Gil Castello Branco, um dos criadores do programa. “Hoje a sociedade está num momento de cobrar por transparência e a quantidade de informação é maior do que a nossa capacidade de processar”, afirmou.

FESTIVAL

Presença constante em alguns festivais de hackers, Castello Branco é também fundador da ONG Contas Abertas. “Nesses festivais, sempre surgem soluções muito interessantes para ajudar controle interno e externo sobre o governo, e também para digerir mais fácil esses dados”, disse.

O aplicativo “Caça-Fantasmas” – ou “Ghost Company” – também foi desenvolvido durante o festival. Com análise de dados oficiais, a ferramenta localiza empresas que prestam serviço ao governo em um raio de 25 metros. Seu objetivo é “confirmar a existência” dessas companhias, na tentativa de divulgar empresas de fachada.

Já a plataforma “Projeto Plenário” deixa de lado os gastos de políticos e foca nos posicionamentos de parlamentares no Senado. Pelo sistema, desenvolvido pela jornalista Gabriela Caesar, é possível conferir o voto dos 81 senadores nos últimos pleitos, além de analisar como o plenário votou e comparar votos de um senador escolhido. Gabriela chama o sistema de “ferramenta de controle social”. “Uniu meu interesse por programação, jornalismo, política, transparência e visualização de dados”, resumiu.


http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,hackers-do-bem-criam-ferramentas-para-fiscalizar-politicos,70001957011

One Reply to “‘Hackers do bem’ criam ferramentas para fiscalizar políticos’”

  1. João Evangelista Cruz says: Responder

    Desafio aos hackers: Monitorar as urnas eletrônicas, e detectar manipulações indevidas. Se possível, inclusive, bloquear as urnas onde se detectar violações.

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