Lava Jato perdeu o pique? 2017 é o ano com menos operações em Curitiba

A redução de agentes e delegados, que levou ao desmanche completo da força-tarefa da Lava Jato na Polícia Federal do Paraná, causou impacto no ritmo das investigações. 2017 é o ano com menos operações em Curitiba, onde a Lava Jato nasceu e despontou como a maior operação de combate à corrupção da história do país.

Foram apenas quatro novas etapas no primeiro semestre deste ano, contra sete ao longo de 2014 (primeiro ano da operação), 14 em 2015 e 16 em 2016. Além disso, as operações em 2017 focaram em pontos menores do esquema que desviou bilhões de reais da Petrobras. Enquanto grandes empreiteiros foram presos em 2014, ex-deputados e o empresário Marcelo Odebrecht em 2015 e o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, em 2016, as quatro últimas etapas prenderam ex-funcionários da Petrobras de pouco destaque.

A última operação foi deflagrada há quase dois meses, em 26 de maio. Desde então, os inquéritos têm caminhado a passos lentos. São cerca de 100 procedimentos em aberto. A Polícia Federal nega qualquer prejuízo para as investigações com o fim do grupo de trabalho. Segundo o delegado Igor Romário de Paula, coordenador da antiga força-tarefa, o fim da dedicação exclusiva de agentes e delegados não afeta o andamento das investigações.

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“O fim do grupo de trabalho é apenas uma formalidade desfeita, a operação ainda é importante, uma prioridade na Polícia Federal. A decisão de integrar a equipe da Lava Jato à Delecor (Delegacia de Combate à Corrupção e Desvios de Verbas Públicas) tem caráter operacional. A perda da exclusividade não vai provocar atrasos na Lava Jato, pois não haverá aumento no volume de trabalho – pelo contrário, teremos mais delegados para receber os inquéritos”, disse o delegado. A Delecor vai atuar, em média, com 84 agentes, peritos e delegados. Porém, eles podem acumular outras operações além da Lava Jato.

Investigadores ouvidos pela Gazeta do Povo demonstraram preocupação com o fim da força-tarefa. Eles disseram que a quantidade de inquéritos em andamento ainda é grande. Além disso, bastante material relacionado a novas delações premiadas deve ser enviado a Curitiba, levando à abertura de novos inquéritos. No auge da operação Lava Jato, entre 2015 e 2016, a força-tarefa teve 11 delegados e 60 agentes. No final de maio, o número foi reduzido para seis delegados (sendo que dois cuidavam basicamente de questões administrativas, deixando os inquéritos nas mãos dos outros quatro profissionais). Houve ainda redução de agentes e peritos.

Falta de recursos

A PF nega, mas houve corte de verbas destinadas à operação em 2017. Um levantamento feito pelo jornal O Estado de São Paulo mostra que o orçamento exclusivo da Lava Jato passou de R$ 4,2 milhões em 2016 para R$ 3,5 milhões neste ano. “Não há restrição orçamentária na Lava Jato. A investigação não parou em nenhum momento por falta de dinheiro”, afirmou Igor de Paula.

Atritos com o MPF

O fim da força-tarefa expôs a divergência entre PF e Ministério Público Federal. Procuradores criticaram abertamente a medida. Em nota, disseram que haveria prejuízo para as investigações, dificultando que os trabalhos prosseguissem com a mesma eficiência com que se desenvolveram até recentemente.

O MPF também atribui a lentidão das investigações à redução no efetivo da Polícia Federal. Segundo os procuradores, o número de agentes e delegados não é suficiente para a atual demanda de trabalho, o que tem impedido a deflagração de novas etapas. “Hoje, o número de inquéritos e investigações é restringido pela quantidade de investigadores disponível. Há uma grande lista de materiais pendentes de análise e os delegados não têm tido condições de desenvolver novas linhas de investigação por serem absorvidos por demandas ordinárias do trabalho acumulado”, diz a nota do MPF.

Interferência externa?

O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, integrante da força-tarefa paranaense, levantou dúvidas sobre o verdadeiro motivo do encerramento do grupo de trabalho da PF. Em uma postagem no Facebook, Lima escreveu: “Não há razão para encerrar um trabalho ainda com tanta possibilidade de êxito (…) qual é o interesse por trás disso?”.

Mais uma vez, a tese foi rebatida pela Polícia Federal. “Não sei o que levou a esse tipo de conclusão, mas criar um argumento de que isso faz parte de uma grande estratégia para abafar a Polícia Federal, eu acho um grande equívoco”, afirmou o delegado Igor Romário de Paula.

Odebrecht

O material decorrente das colaborações da Odebrecht chegou há pouco tempo à PF de Curitiba e ainda está sendo analisado. Até agora, nenhum novo inquérito foi instaurado com base nas delações da empreiteira. “Ainda não temos inquéritos da Odebrecht em andamento e não sabemos o que isso vai gerar de demanda”, afirmou Igor de Paula.

Novas delações

Além do material da Odebrecht, ainda pendente de análise, há outras colaborações sendo negociadas que também podem gerar novas demandas para a PF em Curitiba, como por exemplo, possíveis acordos do ex-ministro Antonio Palocci e do ex-deputado Eduardo Cunha.

 

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