Renan, arroz de todas as festas.

Renan, de articulador de Collor e ministro da Justiça de FH ao comando do Senado.

Fonte: O Globo

Renan vira réu mas não deixa o cargo”. A manchete da página três do GLOBO poderia até espelhar o cenário político da primeira semana de dezembro de 2016 — mas remonta a quase uma década atrás. No dia 7 de junho de 2007, o alagoano de Murici escaparia, pela primeira vez, de um afastamento forçado da Presidência do Senado. Na época, o Conselho de Ética da Casa estreava justamente com a investigação de seu próprio presidente, suspeito de pagar despesas pessoais com repasses da empreiteira Mendes Júnior. O caso fez Renan enfrentar seu primeiro processo de cassação, do qual foi absolvido. Seis meses depois da primeira votação, os governistas assegurariam nova absolvição pelo suposto uso de laranjas em negócios, em troca da aprovação da CPMF (imposto sobre transações financeiras). “O poder é transitório”, ressaltaria o senador de Alagoas em pronunciamento, reproduzido na íntegra em 12 de outubro de 2007, ao tirar licença do cargo entre as duas votações. Para escapar da cassação do seu mandato, Renan acabaria renunciando à presidência da Casa dois meses depois, no dia 4 de dezembro.

Da cadeira de presidente do Senado, Renan deixava claro, em 2007, que a abertura dos processos de cassação não seria motivo para abrir mão do cargo — com o mesmo discurso, em 2016, ele desobedeceu a liminar de afastamento proferida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello. O colegiado da Corte, que o havia declarado réu pela primeira vez em 1º de dezembro, decidiu mantê-lo no posto. Mais uma vez, tratou-se de uma articulação em seu favor de governistas, da base do presidente Michel Temer, preocupados com o efeito na apreciação pela Casa da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do Teto dos Gastos e iniciativas afins.

Eleito deputado federal pelo PMDB-AL em 1988, Renan tornou-se Constituinte após se filiar ao PSDB. Logo depois, firmaria raiz no Legislativo já no PRN, de Fernando Collor de Mello, principalmente após a frustrada campanha pelo governo de Alagoas, em 1990. O primeiro papel de destaque na cena política nacional veio das mãos de Collor, o “Caçador de Marajás” então candidato à Presidência da República. Ele fez questão do aliado líder do seu partido na Câmara, como mostra reportagem do jornal publicada em 10 de agosto de 1989. O braço-direito do futuro presidente organizaria a atuação da pequena bancada de 21 deputados pela vitória de Collor até chegar ao Palácio do Planalto. Mas a aliança não resistiria à “infelidade” de Collor, que apoiou nos bastidores em 1990 a candidatura a governador do adversário Geraldo Bulhões (PFL) — de fato eleito, em um pleito marcado pelas acusações de fraude. Venceria ali o marido de Denilma Bulhões, a prima da primeira-dama Rosane Collor. Desiludido, o segundo colocado Renan preferiu o rompimento com o governo Collor, registrado na edição de 18 de novembro de 1990. Entregou a liderança do partido e atacou o ex-amigo como omisso nas denúncias do Tribunal Regional Eleitoral do estado sobre irregularidades do rival no pleito.

Tanto no papel de candidato ao governo de Alagoas como, depois, no cargo de ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso, Renan Calheiros tentava vender a bandeira da ética. Liderou a campanha “Eleições limpas” no seu berço político, quando o TRE-AL comprovou a adulteração de votos nulos e em branco em favor de Bulhões e ordenou a realização de segundo turno no estado. Renan chegou a sugerir pintar os dedos de eleitores para evitar que a mesma impressão digital votasse mais de uma vez. Bulhões, em contra-ataque, acusava o “teto de vidro” do rival: um cabo eleitoral de Renan teria sido preso com mais de dez mil títulos eleitorais em sua posse.

A rixa, esmiúçada nas edições de meados de outubro de 1990, acabou desfavorável a Renan, que precisou, inclusive, cancelar comícios e fechar comitês de campanha antecipadamente por falta de dinheiro, segundo a enviada especial do jornal a Maceió, Maria Lima, em 17 de janeiro de 1991. Os 46 prefeitos que o apoiaram no primeiro turno haviam sumido, com medo das ameaças de cortes de verba de ministros e do próprio presidente Collor. Com a indiferença do PT, restava a ele o suporte de Eduardo Bonfim, do PCdoB, partido de que Renan foi militante no começo da vida política. No governo Itamar Franco, assumiria posto na Petroquisa, até se eleger senador pelo PMDB em 1994.

O nome do alagoano alcançaria o Executivo por meio da indicação do PMDB na reforma ministerial de Fernando Henrique, ocupando a pasta da Justiça — justamente um dos alvos da ira do senador anos depois, no fim de outubro de 2016, depois da operação da Polícia Federal (PF) que deteve quatro agentes da Polícia Legislativa do Senado. O fato levou Renan a atacar o “abuso de autoridade” de um “juizeco de primeira instância” e do “chefete de polícia” Alexandre de Moraes, ministro da Justiça no governo Temer. A reportagem do anúncio do novo ministro de FH, de 3 de abril de 1998, mostrava os elos de Renan com Collor e ressaltava que o político fora o primeiro a denunciar o empresário Paulo César Farias, o PC Farias, testa-de-ferro do presidente deposto, em cuja CPI chegou a depor. A atuação à frente da pasta dividiria a manchete com o anúncio da final da Copa de 1998: o Brasil enfrentaria a França pelo pentacampeonato, enquanto Renan começava a “limpeza” na Polícia Federal, que resultaria na demissão de 40 policiais por corrupção. Queria, já naquela época, a revisão da Lei de Abuso de Autoridade, contra o chamado segredo de Justiça. Um ano e meio depois da posse, a permanência de Renan se tornou dúvida ao divergir de Fernando Henrique na escolha do diretor-geral da PF.

Na década seguinte, em 20 de fevereiro de 2005, já na era Lula, entrevista exclusiva ao GLOBO mostrava o conforto de Renan na varanda da residência oficial de presidente do Senado. Aos 49 anos, ele aconselhava o PT a “pensar grande” e planejava reativar o campo de futebol da nova casa — para desafiar o time do presidente Lula. Às voltas com a desagregação das correntes do PMDB na Câmara, refletiria sobre o então presidente do partido. “O presidente Michel Temer precisa manter a isenção na condução do processo e não a vanguarda de corrente. Gosto do Temer que soma, não do que divide. Do Temer que pensa grande, não o que olha apenas para o próprio umbigo”.

O poder do senador começaria a se desgastar em 26 de maio de 2007, na primeira acusação de ligações espúrias com empreteiros, sina que o acompanha em 2016, em 12 investigações no foro privilegiado do STF. “Renan dá explicações confusas sobre lobista”, era o título da reportagem do jornal daquele dia. Na ocasião, Renan tentava responder a uma denúncia de que Cláudio Gontijo, lobista da Mendes Júnior e doador de sua campanha eleitoral, havia custeado despesas do congressista e da apresentadora de TV Mônica Velloso, com quem teve uma filha. Com salário de R$ 12,7 mil, precisaria explicar a pensão de R$ 12 mil e o pagamento do aluguel dela, de R$ 4,5 mil. Ele argumentava ter “rendimentos agropecuários”, pelos quais, mais tarde, seria acusado de usar primos como laranjas para ocultar terras em Murici e de apresentar notas frias de venda de gado com o objetivo de justificar faturamento suficiente (R$ 1,9 milhão em quatro anos) para sustentar Mônica e a filha, sem a ajuda de Gontijo. Cinco recibos apresentados, por exemplo, tinham data posterior ao fechamento das empresas compradoras, explicou reportagem de 15 de junho de 2007.

Salvo das votações de cassação — com a ajuda até do então presidente Lula, “em nome da governabilidade”, e da oposição, interessada na linha sucessória do Senado — Renan renunciaria ao cargo de presidente da Casa em 4 de dezembro de 2007. Voltaria à cadeira máxima do Senado em 1º de fevereiro de 2013, já com articulação montada para arquivar possíveis processos contra si no Conselho de Ética, mostrava a reportagem do dia seguinte. “A ética não é meio, é fim”, bradou Renan, contra os que temiam pela volta da crise de 2007. O discurso mais contundente a seu favor viria do novo-velho-amigo, o senador Fernando Collor (PTC-AL).

O novo mandato, no entanto, não significaria estabilidade. No mesmo ano, Renan se desgastou ao precisar devolver R$ 32 mil ao Tesouro Nacional depois de voar em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) de Maceió a Porto Seguro, e depois a Brasília, na ocasião do casamento da filha do líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB). Em 4 de março de 2015, entraria na mira do STF ao integrar a lista de congressistas acusados pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, na Operação Lava-Jato, de receber propina de contratos da Petrobras. A indicação agravou a crise do Planalto com o Legislativo: o presidente do Senado, que servia como contraponto ao ativismo opositor do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), chegou a devolver uma medida provisória ao governo, o que não ocorria desde 2008. Para Renan, tratava-se de denúncias “laterais e “inconsistentes”.

A presença de seu nome nas delações premiadas encontraria o auge na contribuição de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, supostamente indicado por Renan e mantido no cargo em troca de propina, de 2003 a 2015. Reportagem do GLOBO de 4 de junho de 2016 traz o relato de Machado sobre um desvio de R$ 70 milhões de contratos da subsidiária da Petrobrás — destes, R$ 30 milhões destinados ao presidente do Senado, que negou ter recebido dinheiro ou indicado qualquer um para a empresa. A investigação, no entanto, perderia espaço nas discussões legislativas e nas páginas da imprensa com a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Antigo aliado do governo, Renan votaria a favor do impedimento, mas articularia o fatiamento da votação e a subsequente manutenção dos direitos políticos de Dilma. “No Nordeste, se diz: além da queda, o coice. Não podemos ser maus, desumanos”, suavizou, em 1º de setembro de 2016.

Leia mais sobre esse assunto em http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/renan-de-articulador-de-collor-ministro-da-justica-de-fh-ao-comando-do-senado-20630942#ixzz4Se2yJYRr 
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