Leandro Hassum: ‘O politicamente correto é uma babaquice’

Um dos nomes mais fortes da comédia brasileira, o ator falou sobre os limites do humor e a estreia de sua filha, Pietra, na TV

Partiu da Pietra a iniciativa de virar atriz? Eu nunca forcei nada. Quando fui para Los Angeles, dois anos atrás, para fazer um curso de direção de cinema, ela ia ficar comigo lá e minha mulher ia ficar aqui no Brasil resolvendo coisas. Eu disse que ela não ia ficar de bobeira e perguntei se ela queria fazer um curso de cinema. Ela disse que ia fazer de onda, mas se apaixonou, começou a gostar, se dedicou e se encontrou. Ela leva jeito, está curtindo demais. Apesar de eu ter falado para ela fazer, jamais rolou uma insistência.

Como você e sua mulher encararam essa decisão dela? Nós temos uma cabeça muito parecida, somos casados há dezenove anos, lidamos com a Pietra de uma forma muito franca. A gente encoraja, fala: “Vai lá, filha, vai fazer, vai curtir, mas saiba que a gente está aqui, também, se você amanhã achar que não é isso, fica à vontade”. Minha mulher já me viu passando por várias fases, minha filha também, não há ilusão com essa carreira. Essa profissão é como outra qualquer, de altos e baixos. Não tem o glamour que todo mundo pensa, isso é 2% da carreira, o resto é ralação. Eu tenho que passar isso para ela, não é nada fácil.

Vai fazer um humor diferente na série, por ter essa pegada mais família, mais emotiva? Na verdade, eu sempre fiz humor para a família. Meus filmes são os blockbusters que são justamente porque eu consegui preencher uma lacuna de fazer a comédia que a família toda curte. Não é um humor de nicho, politizado, nonsense. A criança curte, a vovó curte, o pai curte, a tia curte, o adolescente curte. Isso é ser popular. Meu grande padrinho e mestre no humor, o Chico Anysio, dizia que existem apenas dois tipos de humor, o engraçado e o sem graça. Eu sempre busco fazer um humor engraçado. Eu não fico pensando: “Ah, agora vou fazer um humor diferente!”. Eu tenho uma identidade como comediante. A diferença nesse trabalho é que vou falar de uma coisa de pai e filha, uma temática nova para mim, sobre pais separados, relação com o pai e com a mãe distante. Isso traz a identificação com o público.

Por que a comédia é o gênero nacional de maior destaque? Através da comédia, a gente consegue tocar em temas mais delicados. O humor tem esse poder e não fui eu que descobri isso, os grandes comediantes e dramaturgos faziam suas peças em praças públicas falando sobre os reinos, seus governantes, mostrando para o espectador os problemas que aconteciam na corte de uma forma mais lúdica. No Até que a Sorte nos Separe 3, há assuntos como a crise financeira do Brasil, tem cena minha com uma presidenta, a gente fala de impeachment. Não só as minhas comédias, mas as da Ingrid Guimarães, que falam sobre essa mulher atual, guerreira, que trazem esse feminismo bacana, as do Paulo Gustavo, quando ele fala sobre uma mãe que é parecida com as nossas, se aproximam do público. Eu ainda acho que preenchi uma lacuna, com todo o respeito e sem querer me achar, porque as pessoas estavam carentes dos filmes dos Trapalhões, que eram comédias para a família toda rir. A criança ria, mas o pai também se divertia com a malícia que o Renato Aragão mostrava.

Como escolhe os seus projetos? Eu ganhei um público que é a família e decidi que não vou trair esses espectadores. Se for um projeto que me deixa feliz, eu vou fazer. Agora que emagreci, recebi alguns convites para viver personagens mais sérios, com uma pegada mais… masculina, não é galã, não gosto de usar essa palavra, mas mais másculo.

Que tipo de projetos recebeu depois de emagrecer?Acabei de filmar Dona Flor e Seus Dois Maridos, em que faço um personagem mais sério. Eu serei o Teodoro, com quem a Dona Flor (Juliana Paes) se casa após a morte de seu primeiro marido, Vadinho (Marcelo Faria), que volta como espírito. Ela trai o novo marido com esse espírito. Tem humor, mas é uma coisa mais séria. Eu gosto muito de experimentar, isso me desafia. Mas não tenho a busca de colegas que dizem que estão cansados de fazer comédia e querem fazer drama. Eu quero fazer projetos que me deem prazer e, por muito tempo, tenho encontrado isso no humor. Se algum dia surgir outro projeto diferente, eu vou fazer se achar que vou me divertir com ele. As pessoas me perguntam se eu não quero fazer novela, mas eu não tenho vontade louca disso.

Alguns humoristas vêm sendo criticados por ser politicamente incorretos. Qual sua visão sobre isso?Acho tudo isso uma hipocrisia, uma babaquice. As pessoas tinham que se preocupar com coisas mais sérias, como a violência contra a mulher, os homossexuais, por causa de raça. Isso tinha que ser mais preocupante do que a piada, o humor. As pessoas estão muito à flor da pele, o mundo precisa de mais amor e mais graça. Outro dia, um cara chamou uma menina de cabelo azul de Smurf e alguém já veio dizer que era racismo. O racismo é uma questão muito séria, a homofobia é uma questão muito séria, mas às vezes, uma piada que não tem nada a ver com isso se transforma em uma questão por causa da intolerância, pelo fato de as pessoas estarem sempre prontas para brigar. A gente tem que se preocupar quando estão falando sério. Se não gosta, assista a outra pessoa, não ria das minhas piadas.

Você se posiciona nas redes sociais quando o assunto é política? Não. Eu luto pelo Brasil, mas não confio em nenhum dos lados. A gente está mal representado. Tinha que começar tudo do zero, apagar tudo, porque eu não vejo ninguém brigando pelo país, só brigando pelo seu partido, pelo seu lado, pelas suas propostas. Eu só quero que o Brasil saia dessa.

O que acha das leis de incentivo à cultura? Continua uma boa portaria, mas tem que melhorar. A gente conquistou muito – no governo passado, o cinema teve uma movimentada. Mas eu fico pensando como vai ser a partir de 2017, porque muita coisa que está sendo rodada neste ano é com os recursos que haviam sido liberados em 2015. A gente teve um ano muito triste para o audiovisual em 2016, baixo investimento e tudo mais. O Ministério da Cultura foi extinto e depois de muita briga voltou. Mas até que ponto isso não é só para inglês ver? A gente não sabe se o Ministério vai ter poder, vai ter voz. Eu até entendo, financeiramente, mas existe um desenvolvimento do nosso cinema, das nossas artes, do nosso teatro, que dependem desses incentivos. Isso não pode ficar tão de lado. Espero que melhore.

Quais são seus próximos projetos? Eu rodei neste ano três longas, um sobre a vida do Wilson Simonal, em que faço o Carlos Imperial, o Dona Flor e Seus Dois Maridos e outro chamado Não se Aceitam Devoluções, remake de Não Aceitamos Devoluções, o filme em espanhol mais visto nos Estados Unidos. No ano que vem eu começo já rodando mais dois longas, Pra Chorar de Rir e O Amor Dá Trabalho. Provavelmente, no final do ano vou começar O Candidato Honesto 2, porque a gente quer lançar no ano das eleições presidenciais.

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